



Ma chérie Elle,
[…] No início eu imaginava que nós tínhamos sido unidos para que eu pudesse ajudá-la a superar a sua dor. Agora, no entanto, meses depois, passei a acreditar que foi o contrário...Está carta não é uma despedida.É um agradecimento. Obrigado por ter me mostrado a felicidade ao seu modo.Obrigado por ter aceitado o meu amor.Mas principalmente obrigado por me mostrar que finalmente chegou o momento em que devemos apenas caminhar.
Eu te amo.
M.
Trecho da carta não enviada à Elle Marshall por Maurice Bégaudeau.Extraído do livro “Ensaio sobre a Revolução”.

Ontem.
I said maybe
You're gonna be the one that saves me?
And after all
You're my wonderwall
Hoje.
There are so many special people in the world
so many special people in the world in the world
All you want
All you want
Amanha.
Hush now, don't explain
There is nothing within me now to gain
I'm gonna skip it instead
Don't explain
Don't explain

De jeans e camiseta, cabelo preso, aos gritos de “Pega, mata e come!”, Bethânia já foi musa da esquerda, tempos do show Opinião. Graças ao acaso- se acaso existe, e não desino- que trouxe a menina Berré de Santo Amaro da Purificação, Bahia, para os palcos do centro do país, indicada pelo irmão Caetano Veloso. Peruca canecalon, coberta de colares e pulseiras, gestos claros, recitando Fernando Pessoa e Clarice Lispector- Bethânia foi musa. A voz muito grave, sussurrando versos sensuais, embalou os amores de casais pelos motéis, rivalizando na venda de discos com o rei Roberto Carlos. Prendeu, soltou os cabelos,calçou,tirou os sapatos, largou as gravadoras comerciais, no auge do sucesso, trajetória inversa, tornou-se independente: conquistou o direito de gravar o que gosta, num repertório coerente e fiel à musica brasileira.
Foram muitas Bethânias nesses mais de 20 anos.Ou era uma só? O escritor Júlio Cortázar, fã confesso (não fosse um iniciado em magia), afirmava que Bethânia e Caetano são uma única pessoa: yin/yang, homem/mulher, Oxóssi/Iansã. Foi muito in, ficou inteiramente out - até ultrapassar as divisões maniqueístas dos manipuladores da opinião pública para ocupar esse lugar muito especial só reservado aos mitos. Bethânia, deusa guerreira de espada em punho e voz rouca, inconfundível, procurando sempre versos que falem às emoções dos apaixonados. Gosta-se dela como se cai em estado de paixão: Além de qualquer razão.
E bela. Bela de um jeito que não é comum ser bela, cantora como não é comum ser cantora - nesse desregramento de padrões estéticos, Bethânia funde a aspereza de onde começa o Nordeste com o requinte dos blues de uma Billie Holiday. Cantora diurna das terras crestadas pelo sol, mas também noturna, dos lençóis de cetim úmidos de suor e amor, transita numa carreira de impecável coerência com sua própria criatura: dividida em mel e espada. Padroeira dos apaixonados, também divididos entre o mel do perdão e a espada cortante da vingança. Dessa extensa legião, Maria Bethânia é a voz mais fiel.
Texto de Caio Fernando Abreu, extraído do LP “Maria Bethânia Personalidade”.