ou que só sentido vê
instigado num lampejo
despertado pelo beijo
que o baile parou pra ver
Dá marchinha fez silêncio
num silêncio escutei
uma disritmia em meu coração
que se instalou de vez
...

Que profundo olhar azul-claro tão intenso e atraente. Que profundo olhar azul-claro. Tão viril e enigmático que nos assusta, mas nos delicia a decifrá-lo, a mergulhar e ser perder. Perder-se nesse ensejado olhar azul-claro. Se comparados, são banais as águas das Antilhas, a cor desse olhar é vívido e único. Tamanha singularidade é vista com a pueril superfície da infância que ele ainda possui. Tão lindo o meu olhar azul-claro. Ele vai caminhando pelo tempo, aprendendo sobre a vida da maneira que pode, seja com o inebriar do álcool, da neblina do seu cigarro, dos espasmos metanfetamínicos, ou até da ardência da coca. Ele vai caminhando com o que sabe, com o que tem. Um amor não basta. Mas azul-claro vai caminhando com o que vem. Até que um dia ele para, o meu olhar azul claro, para no silêncio. No início agonia, mas no findar se revela. Surpreende com lágrimas esse olhar que já não é mais de menina, é de um azul-claro maturado para enfrentar essa cruel vida.
Leitura realizada por M.,em sua carta autoral, para Luci Grey em um domingo de agosto.Trecho extraído do conto "O Monstro", contido no livro "Ensaio sobre a Revolução".
Lyon, 09 de Agosto de 2009
Ma Chérie,
O quê eu sinto, de forma simultânea, e penso de mim mesmo, resume-se em duas palavras: Nojo e vergonha. O casamento ideal de uma evidência gritante que foi cegada pela inocência à espera de sua ultrajante maturação. Não sinto vontade de chorar, ainda bem, pois as lágrimas aliviariam o que o tempo já tratou de pacificar.
A vergonha consiste em ter me tornado subserviente a um ser que representa as intemporais virtudes do homem: Vileza, manipulação e egoísmo. E tudo isso me faz sentir nojo da minha fraqueza e do homem. A princípio usei da compreensão, mas ela foi emotiva e errônea, pois acreditou em palavras belas e ensejadas. Eu sempre ouvia um “amo-te”, mas antes nunca havia parado para me perguntar “onde? Como?”. Caso tivesse feito, imagino que a resposta seria “Esse amor de que você fala. Eu não o sinto, não o toco, tampouco o vejo. Apenas ouço essas palavras belas, mas fáceis. E o que devo fazer com elas? Colocá-las em um ostensório e rezar para que um milagre se concretize?”. Foi exatamente isso que eu fiz. Mas até para um cético fundamentalista que reza de olhos vendados, iludido na penumbra da consciência alheia, esse misticismo torna-se, com o tiquetaquear do tempo, enfadonho e começa a cheirar a decadência.
Mesmo assim, a inocência não tinha sido totalmente metamorfoseada, esse molestamento emotivo tinha sido apenas o prelúdio. Tal pureza precisava chafurdar-se, emporcalhar sua probidade de modo irreversível. E ela o fez. Foi por isso que mesmo desvendado o cético continuou a rezar, mas dessa vez de olhos fechados e coração exangue, ensandecido para que ainda houvesse entre ele e sua causa uma migalha desse amor, mesmo que sujo, que pobre. Quando não houve mais sangue e o desespero se materializou, os olhos foram abertos e a letargia do cético quebrada com um impetuoso vômito sobre aquele altar adornado de sentimentos artificiais.
Uma vez um psicopata me disse que o homem é capaz de cometer o mais hediondo crime e ser indultado se possuísse a desculpa conveniente para tanto. E ele estava certo. Os nazistas, a exemplo, realizaram o holocausto com base na superioridade da raça ariana sobre as demais. E você ma chérie? Realizou seus atos baseando-se em que? Foi ao tentar compreender o incompreensível que eu esgotei o meu futuro em prol de um presente retroativo. Ma chérie, você ao menos tem essa desculpa? Esse álibi irrefutável para ações nefastas?
Depois usei do julgamento, que, diferentemente do imaginário popular, não foi indiferente nem gélido, e sim coerentemente imparcial. Caso não tenha ainda esboçado suas desculpas, atrelo-a ao meu veredicto: Um estratagema sórdido de um ser que foi vítima do amor e, por isso, escravizou outrem com base em sua vendeta arrivista, cujos beneficentes são seus inconscientes preceitos egoístas.
Você, má chérie, poderia ter me libertado desde da nossa última conversa, sentados cara à cara, no shopping, naquela mesma mesa onde tudo começou.Onde foi-lhe entregue o meu inventário. Mas não, eu era tão importante para você com minha capacidade racional de esmorecer suas frustrações e tornar-te sublime quando o espelho da tua consciência refletia uma imagem grotesca e repugnante. Você me cativou com seu ilusionismo intelectual e sua linguagem apelativa. Finalizando tudo ao enraizar em mim a semente da esperança inalcançável com essas improferíveis palavras “Agora, eu não quero ficar com você. Eu quero ficar com outra pessoa. Mas quando eu quiser ficar com você... Eu fico, porque eu sou... um ESPÍRITO LIVRE”.
Intitulo-me um sonhador ma chérie. Acalmo-lhe dizendo que tal experiência não mordeu meus sonhos ao ponto de troná-los mórbidos ou rancorosos. É por isso que vou caminhar e não fugir. E mesmo que o fizesse, estaria fugindo para outro lugar melhor que este. E isso. Isso se chama “migrar”. Finalmente vou migrar para onde migram os pássaros.
Ps.: Sei que essa carta pode gerar uma necessidade de resposta e, por conseguinte, de uma conversa. Mas peço-lhe, por favor, que não tente, pois a verdade sempre será salientada no modo como somos, na pessoa que si é. Sem mais ressalvas.
M.
A porta rangia enquanto o velho careca de poucos fios prateados adentrava em sua casa. Trancou-a com a mesma placidez da abertura, ouvindo mais uma vez o ruído que para ele já era rotineiro.
-Já são quase doze horas!- disse em tom de preocupação. - Tenho que preparar o almoço. Acho que passei tempo demais naquela praça, embora me tenha sido muito produtivo.
Observava com riso a sua recente pintura, seus olhos reluziam um ar de satisfação, como se dissesse a si mesmo “Este quadro arrepiaria, com inveja, os cabelos da barba do velho Monet”. Era dessa lúdica pretensão que gargalhava consigo mesmo ao colocar o quadro para secar:
-Arrepiar de inveja a barba do velho Monet?!Como pode isso?
Depois do almoço sentou-se confortavelmente no sofá, observando a limitada paisagem que sua janela o proporcionava. Tinha o olhar persistente, mas vago. Havia se dispersado em suas dissipações antigas. A preguiça do permanecer na retrospectiva o lembrou que tinha obrigações a fazer, olhou de soslaio para sua estante de livros.
-Esqueci que hoje era dia de te arrumar.
Levantou-se com a mesma placidez de sempre, caminhando vagarosamente para sua única obrigação diária. Era uma estante tão antiga, assim como os livros que ela abrigava, um acervo fenomenal de um eterno amante da literatura. Retirava-os com paciência, muitas vezes abrindo-os e lendo aquilo que a memória o guiava. Encontrou um antigo livro de capa amarela com um pássaro estampado na capa. Folheou algumas páginas, como um errante que procura em uma bússola a direção exata para o destino que ele desconhece. Parou em uma determinada página, enquanto seus olhos planavam no papel, mergulhando sua mente nas palavras que ali havia:
"Consta que o mundo tem muitos anos. Porém raramente ele dura mais de um século. Somos nós que envelhecemos... A maior parte do tempo o mundo desperdiça dormindo... Apenas de vez em quando, ele esfrega os olhos e desperta para a consciência de si mesmo".
"A vida precisa de esquecimento. A saúde do homem depende de sua capacidade de esquecer. De cada ação e de cada momento de felicidade também faz parte do esquecimento. O conhecimento nunca deve se sobrepor a vida".
Fechando o livro, colocou-o junto à pilha dos demais que estavam sendo retirados da estante. O próximo que a mão do velho caçou, em ordem de sua mente, foi um atual roteiro cuja página de destino ele conhecia. Abriu-o com certa ansiedade, dessa vez leu em voz alta para si:
"Porque mesmo que você não saiba para onde vai, ajuda saber que não está sozinho. Ninguém tem todas as respostas. Às vezes, o melhor que podemos fazer é pedir desculpas. E deixar o passado no passado. Outras vezes precisamos olhar para o futuro, e saber que mesmo quando achamos que vimos de tudo, a vida ainda pode nos surpreender. E ainda podemos surpreender a nós mesmos".
Viu cair do roteiro um pedaço de papel. Abaixou-se para pegá-lo, mas não chegou a fazê-lo, pois uma dor pontiaguda que surgira na coluna o tolheu. Com o corpo em agonia, permaneceu parado a fitar o que aquele pedaço de papel o reservava:
A Liberdade
Que espaço o passado reserva a minha liberdade hoje?
A liberdade é uma eterna conquista.
Foram essas máximas que o levaram a perceber que toda essa higiene não passou de um lapso pessoal. Não era dia de limpar a estante. Ele já tivera feito isso ontem. Aos poucos foi recolocando tudo em seu devido lugar, inclusive sua vida. O relógio marcava quase dez horas quando ele se deitou. Dessas vez com uma nova perspectiva,dessa vez com novos sonhos.
O galo não chegou nem a cantar e o velho careca de poucos fios prateados já estava despertado. Tirou do seu antigo encarte o seu futuro disco-Imitação da Vida; Ligou sua vitrola; Caminhou até sua horta orgânica; Colheu algumas folhas de menta; Tomou chá verde com mente; Vestiu sua roupa de fitness e calçou seu tênis; Retirou seu ipod do carreador e o pôs nos ouvidos; Abriu a barulhenta porta com um sorriso e saiu. Saiu para caminhar.
Em uma manhã de raios saudáveis, amontoavam-se várias crianças em um parquinho colorido. Era quase uma balbúrdia de pequeninos seres correndo e divertindo-se em meio aqueles brinquedos. Seus pais quando não os acompanhavam nas travessuras, apenas os observavam de longe. Sentado em um dos bancos, encontrava-se um garotinho cabisbaixo e de pernas juntas, olhando atenciosamente a verde relva primaveril. Observava uma fila contínua de formiguinhas, todas unidas, todas
-Ei!Menino!!!
Essa voz soou em seu pensamento como que um instantâneo resgate para um recém naufrágio.
- Isso é comigo?
-Sim, é como você mesmo! Quer brincar?!
- Briiiinncar?
- Quer ou não?
- Queero siim!
-Então vem. –Segurou a garota na mão do garotinho, puxando-o para si. Ao sentir aquela mão tocar a sua, ele teve a visão do prólogo de seu novo futuro. Era ela, era Ella! Era Ella!
Já era noite quando ele voltou ao parquinho. Uma noite invernosa com uma grande e gorda lua em que suas estrelas imprensavam-se umas com as outras para que pudessem ser reparadas, pelos homens, em meio à voluptuosidade da lua. Estava fisicamente sozinho, carregando consigo um carrinho de mão. Estancou-o defronte ao banco em que costumava se sentar. Posteriormente, já sentado nele, sentiu o estranho saber de estar revivendo algo, mas não por martírio, e sim por tentar encontrar novamente algo. Ironicamente fixou seu olhar na relva, não tinha o mesmo viço de outrora, mas sabia que isso era temporário. Nos tempos de colégio, ouviu falar sobre a vida dos servos medievais, de como as condições de cultivo da época exigiam deles um constante trabalho e cuidado, desde do cultivo até a colheita.Levantou novamente a cabeça, dessa vez deparou-se com os tijolos contidos em seu carrinho.Eram similar a um mosaico, partes visivelmente distintas de um artefato que se formaria.Levantou-se em direção ao carrinho, segurando-o com firmeza nos braços dele.Um súbito calafrio espalhou-se por seu corpo.Meu futuro, é o meu futuro. Sugado novamente por seus pensamentos, não percebeu a presença de um pássaro pousando em seu ombro. Aprender a lidar com os inescapáveis acontecimentos arbitrários que o ser humano é submetido em suas vidas. Não te preocupas, haverá sempre alguém para tratar com zelo dos teus calos, ao decorrer do caminho. Foram esses os pensamentos que precederam seu retorno a realidade, não se sabe se eles eram frutos de sua vertigem ou se eram, do pássaro.Pois quando ele despertara, o pássaro já havia voado.De uma coisa tinha certeza. Ao futuro.
Ao futuro.
Nova perspectiva de vida.
Um velho dirigia-se aquela notória praça, a fim de tranqüilizar-se com sua própria essência. Levava consigo seus objetos de pintura. Planejava transpassar para a branca tela uma nova imagem que tivera visto dessa praça. Estava ela hoje ornamentada para um ato efervescente, parecia até que as crianças que ali brincavam; os cachorros que corriam; as velhinhas que cochichavam da vida alheia; os passarinhos que chilreavam o horizonte que se iniciava; sabiam a grandiosidade representativa daquele dia. Todos estavam impecáveis, prontos para serem personificados em uma tela com cores motivadoras de uma alegria borbulhante.
Não, não!Isso não esta certo! Embora haja ideais libertários, a expressão que aqui vejo... Esse cubismo invadiu minha pintura! O que há aqui são formas de um obscurantismo geométrico cujas cores dialogam sobre um cinza monocromático que persiste a clamar pelo negro e seus afins. Isso não esta certo.
Fitava a obra coçando sua careca de poucos fios prateados. Sem saber o que fazer, afligia-se. Os seres e as coisas notaram sua inquietação, mas tentaram manter a calma, mostrando ao velho homem que a resposta era evidente e o botão da solução estava prestes a brotar. Já sujo com a tinta que usara, percebeu o contraste entre essa e a coloração da praça.
Por que esperar se eu posso fazer o futuro acontecer agora?
Dessa perspectiva descontínua decidiu remontar a pintura com a subjetividade e a irracionalidade que era inerente ao pintor e a obra, decidiu não jogar fora a tela- queria usar esse estrume como matéria-prima para a flor que fora citada, uma flor que seria cheirosa e sã. Foi buscar no subconsciente dos sonhos a inesgotável sabedoria para recriar-se, mas diferente do surrealismo, usou da coerência da sua aquarela para adequar a imagem que deveria ser pintada com o equilíbrio de seu expressionismo real.
Formidable, entonces mi preciado, ¿Qué te parece?
Cravou seu olhar com obstinação naquele chafariz que se encontrava no meio daquela tela- agora de cores vivas que brincavam entre elas; cochichando o outrem; chilreando a liberdade das palavras; correndo para o cordial afago.O sol parecia tê-lo tornado vivo. E foi nessa pupila aquosa que o velho homem viu o mais lindo reflexo de sua vida